segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A construção e a anatomia de um acidente.

Eu, decolando da Moeda, em 01/07/08 minutos antes de fraturar o úmero e lesionar um tendão...

Ao contrário do que as vezes possa parecer, não sou dado a crer no improvável e no inevitável. Admito a possibilidade de acontecimentos inexplicáveis, embora seja obrigado a admitir também a minha dificuldade em aceitar fatos taxados como inevitáveis ou inexplicáveis. Estes são na minha opinião, mal conhecidos e por isso, mal explicados.
O acidente do título desse texto não é um acidente qualquer, genérico, apesar de não ter tido grandes consequências. Trata-se na realidade de um acidente em especial. Na verdade, acidente que aconteceu comigo no dia 01/07/2008, minutos após eu decolar da Serra da Moeda para um vôo prego de meio de semana, do qual resultou uma fratura de úmero e lesão de ligamentos (um tal de supra-espinhoso - dói pra caramba), que me proporcionaram tempo para escrever isto que vocês estão pacientemente lendo, e mais ainda para refletir a respeito do tal acidente que inicialmente me pareceu inevitável, inexplicável; um acidente enfim. Afinal, qual a explicação possível e não transcendental pode haver para, após pousar achar um buraco pelo caminho, tropeçar e cair sobre o ombro com as funestas consequências já citadas?
O acidente apesar de ter acontecido no pouso depois de um Vôo prego, começou a ser construído no final de 2007/início de 2008.
O ano de 2007 foi pródigo em bons vôos. Na Serra da Moeda, em Leopoldina, Festivais de vôo, Campeonato Mineiro, foram várias as situações em que eu pude fazer belos vôos.
2007 foi, provavelmente, o ano em que mais voei na minha vida.
Resolvi então me planejar para que em 2008 eu voasse ainda mais e melhor. Troquei o parapente, marquei férias para a temporada de vôo (quem não tem filhos não imagina como é difícil marcar férias fora da tríade Julho-Dezembro-Janeiro), resolvi aumentar a minha frequência de vôos. Esqueci-me porém, de considerar o mais importante: o prazer em voar livre de planejamentos, metas e as consequentes frustrações.
Um grande paradoxo! Voar muito e bem, me fez querer voar mais e melhor; acabei voando menos e mal como os pacientes amigos verão a seguir.
Meses antes do caso, lembro-me de comentar com alguns colegas de vôo que vinha voando com menos prazer do que o costumeiro. Para ser ainda mais sincero, em algumas ocasiões simplesmente não havia prazer em voar. Não entendia como e porque o vôo livre tinha deixado de ser fonte de plenitude e alegrias.
Só comecei a entender dias depois de me machucar. Em retrospecto, lembrei de vôos pouco antes que salvei em térmicas bicudas e próximas do relevo, pousando aborrecido por não ter ido mais longe, ralado mais baixo ou acelerado mais.
Recordei a displicência em algumas decolagens, e me surpreendi quando entendi que todos os sinais de que algo iria acontecer estavam lá sem que eu me desse conta de que o processo de construção de um acidente já havia chegado em seu final. Fraturei o braço não porque simplesmente pisei num buraco, mas porque voava displicentemente já há muito tempo culminando com um pouso desatento e "mole" que acabou tendo consequências.
A fisioterapeuta e o médico me prometeram que ainda esse ano volto a voar. Eu prometi nunca mais esquecer que devo voar pra mim e não para metas, frutos da presunção que temos de achar que controlamos a vida.
Ao final, não poderia deixar passar trecho de uma carta que recebi da minha mãe, dia 17/06/08 - guardo o original para quem quiser conferir - quatorze dias antes do acidente; na ocasião, ela demonstrava a sua preocupação com os riscos do vôo e narra um sonho que havia tido naquela noite:

"...não sei explicar se fui alertada, se foi sonho ou pesadelo; só sei que no sonho, alguém que não conheço falava vários nomes de automobilistas, alpinistas, pilotos de asa e parapente já mortos, frisando que todos eles haviam sido alertados de que tinham compromissos a serem cumpridos mas preferiram não dar ouvidos. Me recordei de alguma coisa como ser forte não é insistir em desafios, não é ser vaidoso a ponto de colocar a própria existência em segundo plano, mas ser grande em admitir a hora de parar, valorizando a vida e levando adiante um compromisso..."

Talvez tenha sido um mal menor. Talvez o inexplicável esteja mais presente em nossas vidas do que imaginamos.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Os currículos ocultos no aprendizado de vôo livre.


Primeiramente é preciso reiterar que o texto a seguir não tem a intenção de nortear procedimentos; é sim, um material que pode e deve ser aproveitado por àqueles que querem praticar uma instrução de parapente melhor e mais efetiva.
Tenho estado durante os últimos 5 anos envolvido no processo de facilitação de aprendizado de adultos. Tenho orgulho de já ter participado da formação de milhares de pessoas e creio, sinceramente, que a educação é saída para grande parte dos males que afligem a vida social atualmente. A estes com quem mais aprendi do que ensinei, eu agradeço imensamente.
Hoje vou me aventurar por uma área na qual meu conhecimento é muito genérico e empírico: a instrução de parapente. Vôo desde maio de 1995 e naturalmente, venho observando como as coisas acontecem no meio. Por outro lado, tenho alguma experiência na formação de adultos que me parece perfeitamente aplicável no vôo livre.
Já em 1902, o pedagogo John Dewey se referia a uma "aprendizagem colateral" que ocorreria simultaneamente ao currículo explícito. A esse processo posteriormente foi dado o nome de currículo oculto. Quando se fala em Currículo Oculto, obrigatoriamente nos referimos ao ambiente de aprendizado como transmissor de uma ideologia não explicitada nos programas.
O caso é que nem sempre o conteúdo explícito em todas as áreas(o currículo propriamente dito) é a única nem a mais importante referência no processo de aprendizado.
O currículo oculto corresponderia ao funcionamento normal das escolas; o que há de mais evidente comum e tradicional: aquilo que já se tornou tão familiar que já não nos chama mais a atenção. Os principais transmissores do currículo oculto são aqueles que intervêm no aprendizado como os Monitores e pares de aprendizado, mas principalmente os instrutores.
Un instrutor que é justo, honesto, assíduo e pontual, que não se acha o único nem o mais importante ensina por si, só por ser assim.
Aquele que é capaz de "desistir" de uma aula previamente preparada em prol de uma conversa, esse ensina duas vezes.
O que não tem medo de se expor como pessoa pode ensinar mais do que mil livros e milhões de teorias.
Aquele que não admite elitismos tolos, frases racistas, diferenças de gênero e é capaz de explicar sua posição, esse vale por um tratado inteiro de pedagogia.
Ao contrário, o que chega sempre em cima da hora, que atende o celular durante as aulas, que tem tiradas cínicas (essas sempre facilmente identificadas pelos alunos, creiam), que nunca está disponível fora do horário previamente definido, que fala daquilo que não acredita e acaba por demonstrar isso nas suas práticas, este desensina mais do que ensina.
Alguma ligação com o ensino de parapente?
O Instrutor que vende equipamentos inadequados para um aluno, ou que se acha o maior portal de sabedoria do universo, assim como aqueles que vivem pregando uma coisa e fazendo outra mesmo que seja nas sutilezas das tiradas cínicas, os que nunca têm tempo para os alunos pois vivem muito ocupados na rampa para um papo com os preás, estes contribuem muito para a formação do currículo oculto.
Àqueles que falam de segurança exaustivamente, mas banalizam a morte de um companheiro de esporte, saibam que estão perdendo tempo. A postura oculta nesse caso "ensina" muito mais que a retórica e a técnica.
A prática de formação de conhecimento é algo muito sério em todos os campos. Mais ainda em uma seara onde a integridade física das pessoas dependem daquilo que é retido no processo de aprendizado como o vôo livre. Existe uma diferença entre o que é ensinado e o que é retido - é a isso exatamente que se refere o currículo oculto.
Abramos os nossos olhos de ver, para que um dia a nossa consciência não nos cobre um preço demasiado alto...

-Referências ao texto " O (meu) currículo oculto" de Carmo Cruz, Professora do Departamento de Pedagogia da Universidade de Lisboa.

terça-feira, 20 de maio de 2008

A ciência, o inexplicável e a mistificação.

Santa Rita do Sapucaí metade iluminada e metade já na sombra da tarde. Maio de 2004.

No século XVII viveu o filósofo Kant, que dentre outras coisas propôs o chamado paradigma científico Kantiano : "o que não é provado não existe". Na ocasião a ciência ganhou muito em qualidade e em credibilidade em razão dessa proposição, que fez com que, paulatinamente, a influência obscurantista da religião se fizesse cada vez menos importante no trato científico. Me lembro de um filme do grupo humorístico inglês Monty Python (acho que era "Em busca do cálice sagrado") em que numa das esquetes, um sacerdote na idade média conclui que uma mulher era uma bruxa porque não era um pato...e assim a coitada acabou queimada, num exemplo muito bem humorado de como as conclusões se faziam antes do paradigma de Kant.

Passados quase 400 anos da proposição de Kant, no entanto, nos deparamos com novas situações que acabam por nos colocar diante de um novo dilema.

A física, após a Teoria da Relatividade, a medicina diante de fenômenos ditos psicossomáticos, a parapsicologia deparando-se com fenômenos que dentre outras coisas esbarram na pré e pós existência da essência do ser humano (para quem se interessar pelo assunto fica a dica: procurem referências sobre o experimento Scholle), dentre tantos outros exemplos, demonstram diariamente que, as vezes, o que não é provado existe sim, e faz uma enorme diferença na nossa vida.

Faz-se necessário que passemos a considerar realidades mais sutis como essas que citei para que evitemos uma nova era obscurantista, desta vez causada pela luta entre ceticismo e mistificação. Explico: vez ou outra me assusto com pessoas que, com um razoável grau de conhecimento acadêmico, aparecem com conversas a respeito de abduções alienígenas, reencarnações em Marte e toda sorte de bobagens. Fico com a impressão de que, inconscientemente, essas pessoas se deram conta de que a ciência não vem conseguindo explicar nada daquilo que importa em suas vidas; da falta de credibilidade na ciência para essas colocações absolutamente desprovidas de qualquer senso lógico, me parece uma distância muito pequena...
Importa que em uma nova era que já começamos a vivenciar, consigamos tratar das coisas sutis de forma a não excluí-las das possibilidades lógicas sob pena de continuarmos a alimentar bobagens que desmoralizam e trazem a descrença.


Por outro lado surgem os céticos, que insistem em considerar o paradigma Kantiano como uma verdade absoluta - outra grande bobagem que ao final, só acaba por tornar cada vez maior a "guerra" entre os "esotéricos" e os céticos.
Temo que vivenciemos uma nova era obscurantista se não assumirmos que o paradigma Kantiano já deu o que tinha que dar. Admitir que o improvável também é uma realidade muito palpável em nossas experiências na vida é o primeiro e mais importante passo para que consigamos eliminar os dois grandes males desse início de milênio: O "esoterismo-bobagem" e o "ceticismo-cabeçudo".
Pronto; falei... :-D

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Medo

Você tem medo de quê?
Nego-me a me submeter ao medo que tira a alegria de minha liberdade, que não me deixa arriscar nada, que me torna pequeno e mesquinho, que me amarra, que não me deixa ser direto e franco, que me persegue, que ocupa negativamente minha imaginação, que sempre pinta visões sombrias.
No entanto não quero levantar barricadas por medo do medo. Eu quero viver, e não quero encerrar-me. Não quero ser amigável por ter medo de ser sincero. Quero pisar firme porque estou seguro e não por encobrir meu medo.
E, quando me calo, quero fazê-lo por amor e não por temer as conseqüências de minhas palavras.
Não quero acreditar em algo só pelo medo de não acreditar. Não quero filosofar por medo que algo possa atingir-me de perto. Não quero dobrar-me, só porque não tenho medo de ser amável. Não quero impor algo aos outros pelo medo de que possam impor algo a mim; por medo de errar, não quero tornar-me inativo. Não quero fugir de volta para o velho, o inaceitável, por medo de não me sentir seguro de novo.
Não quero fazer-me de importante porque tenho medo de que senão poderia ser ignorado.
Por convicção e amor, quero fazer o que faço e deixar de fazer o que deixo de fazer.
Do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor. E quero crer no reino que existe em mim.
(Rudolf Steiner)
Texto enviado pelo amigo Ornelas, a quem eu agradeço a gentileza.

terça-feira, 6 de maio de 2008

A vingança, a justiça, o perdão e o esquecimento.



“O perdão dado a si mesmo lava a alma, purificando-a da vergonha e da culpa. Do perdão a si mesmo brota a força de perdoar aos outros”.

Parece bem possível que num primeiro momento se consiga separar com base nas afinidades, as coisas assim: Vingança-justiça e perdão-esquecimento.
Quando pensamos em um crime bárbaro ou uma situação aviltante, muitas vezes a idéia de vingança se confunde com a de justiça; não vá dizer que você, um dos meus poucos e pacientes leitores, ao se deparar com a notícia de um crime bárbaro pensa na prisão de seu autor como uma forma do Estado tutelar aquele cidadão até que ele tenha novamente condições de viver em sociedade né?
Na verdade, o que nos ocorre é que simplesmente a criatura deveria apodrecer na cadeia (ou coisa mais contundente); não como forma de justiça e sim, como forma de vingar-se numa espécie de exorcismo daquilo que nós seres humanos não queremos ver em nós mesmos. Para conseguirmos diferenciar de forma prática a vingança da justiça, importa que primeiro nos reconheçamos humanos, com todas as nuances próprias da raça. A vingança é instrumento próprio daqueles que ainda não conseguiram se livrar dos seus próprios fantasmas. A justiça como a concebemos, é simplesmente uma forma de controle social. É preciso que as duas não andem juntas; e é imprescindível que não seja dada a justiça a responsabilidade de resolver e/ou solucionar os problemas e males humanos.
O perdão é sentimento pleno e traz consigo a constatação de que o indivíduo, antes de qualquer outra coisa, se reconheceu como ser falível; deixou de ser um carrasco de si mesmo. Quando nós somos os nossos próprios carrascos não há como esperar que sejamos coisa melhor para os outros.
O perdão não está ligado a ofensa ou mal feito ao indivíduo; tem sim um liame inquebrantável com a capacidade de reconhecer que todo mal ou ofensa, só é mal ou ofensa a depender do que consideramos maléfico ou ofensivo. Para ser mais claro, o perdão está ligado diretamente a capacidade íntima de cada um de nós de relevar àquilo que não consideramos certo, partindo do princípio de que nem sempre a nossa verdade é mais verdadeira do que qualquer outra. O perdão (este sim ao contrário da justiça), tem a capacidade de modificar a realidade e transformar a vida, sobretudo de quem adquire a capacidade de perdoar.
O esquecimento, ao contrário do que muitos imaginam, é fenômeno de memória e não tem nenhum vínculo direto com o perdão. É possível perdoar sem esquecer.
“Eu não consigo esquecer quando me prejudicam” e outras constatações semelhantes servem de subterfúgio para não se dar ao trabalho de exercitar a difícil arte de perdoar. A memória é atributo físico e, mesmo que se tente, não será suprimida de modo algum. Qualquer experiência marcante na nossa vida não é e nem poderia ser esquecida facilmente; constatação que, naturalmente, não impede que perdoemos.
Ah!!! Já ia me esquecendo; às vezes perdoar é muuuuiiiiiiiito difícil; se você não conseguir, perdoe-se...

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O abismo de nossa ignorância


“O saber é uma tênue miragem, que o viajante nunca chega a alcançar, e de cuja presença só toma conhecimento ao fim da estafante jornada.
O abismo de nossa ignorância não se abre aos nossos olhos, senão depois de adquirirmos um bom cabedal de conhecimentos.
O homem que nada sabe acredita que nada há a saber, e julga-se, por isso, onisciente; impossível pois, dissipar-lhe essa ilusão”.

Ao ler o texto do Sivuca (a quem eu não tenho privilégio de conhecer pessoalmente; fato que evidentemente não impede que eu seja admirador de seus textos) “Tenras idades, tenros ossos”, não pude deixar de me lembrar de quando, aos 20 anos, fiz o meu primeiro vôo de parapente. Poucos conhecimentos eu tinha e achava que os detinha em grande quantidade.
Hoje sei o quão grande é minha ignorância em matéria de vôo livre e porque não, em matéria de viver. Vejo um monte de gente que, como eu há alguns anos atrás, acha que detém muito conhecimento. Longe de mim querer aconselha-los; ao contrário, acho sim que cada um de nós tem um caminho único a trilhar na vida e todos os erros e acertos são parte indelével de nossa programação nesse planetinha ainda azul.
De toda forma, não me sentiria bem em não alertar aos novos (de idade e, sobretudo de esporte): cuidado quando acharem que estão sabendo muito – justamente aí é que provavelmente você terá uma oportunidade, talvez única, de aprender. Para o bem de sua integridade física.

sexta-feira, 28 de março de 2008

"Viver é negócio muito perigoso..." - Fragmentos do grande João Guimarães Rosa e uns retratinhos legais...

"De cada vivimento real que eu tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Assim eu acho, assim é que eu conto..."

"Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe..."

"O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem se misturam..."

"Contar é muito , muito, dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas - de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não. São tantas horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo miúdo recruzado..."

"A brandura de botar para se esquecer uma porção de coisas - as bestas coisas em que a gente no fazer e no nem pensar vive preso, só por precisão, mas sem fidalguia"

segunda-feira, 24 de março de 2008

O Swing Mistral 5 - Minhas impressões


Foto: Swing


Na última Sexta 21, fiz meus primeiros vôos com a minha nova vela - um Swing Mistral 5 (LTF 1-2 EN B). Foram aproximadamente 1 hora e meia voando; primeiro em condições termais fortes, depois um pouco mais fracas;por fim, um lift de fim de tarde.
Em que pese o fato de eu não me sentir apto a dar um parecer técnico acerca do parapente, sinto-me bastante a vontade em falar das minhas impressões usando como parâmetro outros parapentes em que já voei. A propósito, acho que se esse hábito fosse adotado por todos os pilotos que trocassem a asa, acrescentaria-se muito em termos de cultura esportiva e técnica a comunidade do vôo livre em geral. Talvez as pessoas evitem fazer uma colocação elogiosa ou uma crítica a um parapente, no receio de serem interpretadas como "garoto(a)- propaganda" ou crítico(a)de uma marca. A minha opinião é que se cada piloto tornasse público suas impressões acerca do parapente que voa, a escolha na hora da troca seria mais fácil e mais criteriosa. Certamente há mercado para todo mundo e qualidades e defeitos em todos os paracas. Precisamos descobri-los no intuito de achar aquele que combine mais com o que buscamos.



foto: Swing


Após o prólogo de praxe, vamos ao que interessa: O Mistral 5.
Na Sexta, cheguei na Serra da Moeda em BH por volta das 09:30 com o objetivo de fazer algum controle de solo com a minha nova vela antes de voar. Ansioso como uma criança que acaba de ganhar um brinquedo, tratei logo de abrir o paraca no pouso para infla-lo. Logo notei o acabamento caprichoso da Swing. Costuras, painéis e design me impressionaram muito positivamente. Velcro na ponta dos estabilizadores, borracha anti-derrapante nos batoques são bons e úteis "acessórios".
Seguindo a nova onda, o Mistral 5 também não tem linhas "D". São três tirantes (A, "baby A", B e C); o caso é que o tirante C vem com o que vou chamar de "Baby C": um pequeno tirante que nasce do C principal e que morre nas linhas do centro da vela; eu e outros piltos fizemos várias suposições a respeito de sua utilidade - resguardar um pedaço da vela do efeito do acelerador, diminuir arrasto, fazer com que o freio não atue (ou atue menos) no terço central da vela; poderia até o tal "Baby C" ser apenas uma solução da Swing para a ausência do "D" e aí ele não seria um "Baby C" e sim um "Pseudo D"... enfim, foram várias suposições sem que no entanto chegássemos a um consenso. Até o momento o manual do Mistral 5 está disponível apenas em Alemão, o que limita em muito a minha curiosidade.
O Mistral 5 tem ainda uma linha que atravessa toda a vela, por entre as células, no terço próximo ao bordo de fuga. Essa fita foi considerada por todos que a viram, consensualmente, um estabilizador da vela.

A INFLADA: O Mistral 5 é uma vela muito tranquila na inflada. Não sobe rápida demais, o que me pareceu uma qualidade bastante importante já que o ventão estava razoavelmente encorpado no dia de nossa estréia. Talvez na ausência de vento na decolagem essa peculiaridade se torne um defeito. De toda forma, nunca fui chegado em velas que sobem de forma brusca e rápida demais. Neste quesito, ponto para o Mistral 5.

O VÔO: Comandos precisos e honestos, sem nenhuma dose exagerada de conforto que prejudique o feedback necessário para a pilotagem ativa, o Mistral 5 me pareceu uma vela muito bem equilibrada, com uma certa tendência a esportividade. Os comandos não são muito macios e o seu curso de freios é compatível com o de um LTF 1-2: longo e tolerante.
O visual é um detalhe à parte; como haviam dois Mistral 5 voando na Moeda (deve ser a única rampa do mundo nesse momento em que voam dois Mistral 5 juntos) tive a oportunidade de ver a vela em vôo também; o shape do Mistral 5 é muito moderno e me lembrou muito as fotos que vi do Sport 4 da Airwave, com grande arqueamento e tensionamento dos estabilizadores que dão a vela um visual bem diferente.

RENDIMENTO E SEGURANÇA:Tive a impressão de que a vela perde pouco ( ou menos do que eu imaginava ) durante as turbulências e movimentos do Pitch, mas essa é uma impressão que eu ainda preciso confirmar. A velocidade de mãos altas é satisfatória e compatível com uma 1-2 moderna; porém, ao usar o acelerador tomei um "bom" susto: a vela acelerada rende MUITO com uma taxa de queda muito boa para a classe. É o tipo de vela que faz com que o piloto use o acelerador com frequência; acelerada, é bem estável e rende muito bem, um binômio difícil de ser encontrado na classe, convenhamos. OU a vela é estável acelerada OU rende bem. O Mistral 5 é estável e rende, com um afundamento muito honesto para a classe.
Peguei uma condição bem pauleira numa aproximação e a vela reagiu muito bem respondendo prontamente aos comandos, mostrando velocidade adequada para encarar o ventão na final e resistência a colapsos - não sofri sequer uma orelhinha e posso garantir que uma fechada eventual não estaria fora do script para a condição. Foi uma boa impressão do comportamento da vela.

RESUMO FINAL: O Mistral 5 é uma vela com performance digna dos novos e modernos 1-2. Não é a primeira vela para um piloto; trata-se talvez, de uma vela para quem voa de LTF/DHV 2 e quer fazer um bom Downgrade sem perder performance ou para o piloto que quer começar a colocar um pouco mais de tempero em seus vôos de fim de semana. No cross, acho que vai acompanhar tranquilamente o povo do pelotão "intermediário".
Eu fiquei muito satisfeito com o paraca; atendeu plenamente minhas expectativas iniciais.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Por que voar de DHV 1-2?



Eu e um irmão "vertebrado" em Mariana/MG. Crédito da foto para o amigo Rogério.

Acabei de trocar a minha vela. Vendi o "Nemo" (um Ellus 2 que me deu muita felicidade) e comprei um Mistral 5 da Swing, também DHV 1-2 que infelizmente ainda não tive oportunidade sequer de inflar dada as condições diluvianas da região.
Vez ou outra, sou questionado sobre os motivos que me levam a continuar voando de velas de homologação baixa. Como a escolha do tipo de vôo que queremos fazer é uma questão que me parece importante, vou dar os meus motivos, que, afinal, estão longe de ser uma verdade absoluta. Trata-se somente da minha verdade, que pode ser diferente da sua e, seguramente, é diferente DA verdade, essa por sua vez diferente da minha e da sua.

1)Um mito muito comum no vôo livre, é de que o desempenho de um piloto melhora na medida em que ele passa a voar de velas de homologação mais alta.
Não é verdade; trata-se de um caso "do rabo que abana o cachorro" O desempenho do piloto melhora na medida em que ele torna-se mais capaz de entender a dinâmica do vôo livre e aplica-la de forma instintiva durante o vôo. A regra correta seria melhorar o piloto e depois trocar a vela (aí sim o cachorro abanaria o rabo) e não trocar a vela na intenção de melhorar o piloto. Além de ser uma atitude completamente ineficaz, mostra-se vez ou outra temerosa e inconsequente.

2)Um parapente DHV 1-2 de fabricação recente não limita o vôo de grande parte dos pilotos que eu vejo em rampas pelo Brasil a fora.
É errado imaginar que é regra geral, aplicável a todos no vôo livre, a premissa de que um vôo vai mais longe ou dura mais tempo se o piloto estiver voando velas de homologação mais alta. Ao contrário, o vôo pode ser melhor sob todos os prismas se o piloto voar em uma vela que lhe transmita mais segurança e não o surpreenda em situações mais críticas de turbulência. São inúmeros os exemplos de situações que comprovam essa teoria.

3)Talvez seja essa a questão mais delicada; a vaidade e a ética de grupo. O vôo livre é um esporte que transborda vaidade. Os pilotos são levados a imaginar que são pessoas "mais especiais que os outros" pelo fato de terem condições de carregar dentro de uma mochila as asas que os levam onde poucos têm coragem ou condiçoes de ir. A plenitude de estar voando às vezes é tão marcante que nos esquecemos que somos seres errantes num planetinha azul; deixamos de lembrar enfim, que somos tão mortais como qualquer outro.
Como em qualquer outro meio social, no vôo livre também surgem regras inconscientes de condutas, que tendem a se sobrepor as regras de comportamento normais que valem para todas as outras situações. Tudo bem quando a ética pessoal não se perde...
Quando estamos na rampa falamos e agimos de maneira própria, de forma a que àqueles que não são do nosso "clã" imaginem até que dialogamos em um idioma desconhecido e que àquelas roupas coloridas e diferentes (algumas sem nenhuma serventia) são feitas exclusivamente para aqueles seres especiais.
A essas peculiaridades sociais daremos o nome de ética de grupo. A ética de grupo usualmente, não passa de um meio legítimo de identificação de pessoas com o mesmo interesse social; assim também o é no vôo livre. O problema é que as vezes a ética do grupo impõe algumas ações temerosas.
A vaidade da qual falamos acima, juntada a ética de grupo cria condições ideais para que nasça a cultura do-cabra-bom-voa-de-vela-brava, premissa que mostra-se diaria e exaustivamente falsa.

4)Se eu pudesse dar uma sugestão a todos os meus irmãos de vôo eu diria: Voe o que lhe faça feliz! Preferencialmente, com o parapente que signifique o caminho mais fácil para a felicidade que só nós conhecemos: estar nas alturas escutando e sentindo o vento. Descobrindo na prática que o invisível e improvável existem e são tangíveis.
Afinal, somos todos especiais mesmo né?

Brevemente, posto as fotos e minhas impressões do Mistral 5.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A RAÇA DOS DESASSOSSEGADOS

Eu e o "Nemo" decolando na Moedinha 2007. Crédito da foto para o amigo Michel.

Conheci esse texto em Dezembro do ano passado e foi "amor a primeira vista".


A RAÇA DOS DESASSOSEGADOS - De Martha Medeiros

Foi no livro "A caverna", de José Saramago, que o personagem Cipriano Algor definiu seu genro Marçal como um homem "da raça dos desassossegados de nascença". Logo pensei ao ler, "eu também sou", assim como você deve estar pensando , "me inclua nessa".

À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos, como característica dessa raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, esse adversário implacável.

Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete contante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.

Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem muito menos amor do que planejavam.

Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam antes de concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.

Desassossegados não podem mais ver telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando as pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.

Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando sua abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegadoa voltados para a frente.

Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.

Dessa raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

TUDO É RELATIVO

Quando eu estava convencido de que postava fotos antigas, eis que me chegam essas fotos do período Pré-Cambriano do vôo livre por email. Agradeço ao Arturzim Lewis pela gentileza.



Isso parecido com um parapente que aparece nas fotos se chama, de acordo com o Tuzim, ITV - Diadema e seria um paraca de competição (!)


De novo, o tal ITV Diadema decolando do que seria uma laje de um Mirante. Reparem na selete que o nosso herói usa...
O Tuzim prometeu mandar mais fotos dessa era geológica pouco conhecida do vôo livre; vamos aguardar.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

FINAL: ARQUEOLOGIA VOADORA - histórias, fotos e registros mofados, embolorados e cheios de teias de aranha.

Mais alguns retratos ("retrato" é uma palavra que tem mais a ver com aquele tempo)


Um pouso no Mirante da 040: o único registro que eu tenho de vôos nesse lugar; provavelmente 1998.


O único vôo no Nova Phocus que eu tenho fotografia. E a vela era boa pra caramba!
Microondas, 1998.


Vôo do Morrinho em Bicas. Olha aí Heman!!! O Morrinho é esse sô!

CONTINUAÇÃO: ARQUEOLOGIA VOADORA - histórias, fotos e registros mofados, embolorados e cheios de teias de aranha.

CONFORME PROMETIDO, A BOBAGEM EM SEQUÊNCIA FOTOGRÁFICA:


...Pose antes de se jogar...


...Ai meu Deus...! E agora o que que eu faço?


...Ihhhh....esse trem tá voando...! e tá balançando pra caramba!

1997: Argirita/MG
-No lugar decola-se como se pode notar nas fotos, de frente para outra montanha, com efeito razoável de rotor;
-Ao contrário do que pode se imaginar, NÃO existe pouso abaixo da montanha. Para pousar, é preciso dar a volta na montanha da decolagem e pousar atrás dela; no rotor :-O
-É possível voar num lugar assim? Hoje acho que apesar de possível (como provam as fotos), não é prudente. Mais imprudente ainda foi voar sob estas condições sem ter nenhuma noção do que poderia ocorrer, como nesse fatídico dia.
Que fique claro que eu nao tenho a intenção de fazer apologia da bobagem; é somente uma lembrança dentre tantas outras das quais depreende-se que ao menos alguma coisa eu acabei aprendendo em todos esses anos...pelo menos não decolei mais de Argirita :-D
-Me lembro em especial, que nesse dia eu tive a sensação de que eu iria despencar (talvez fosse isso mesmo né?) a qualquer momento. A turbulência orográfica, tanto à frente da rampa por efeito de estar voando a sotavento de outra montanha, como no tal pouso , que na verdade é um rotor do local onde se decola, eram bastante fortes (ou pelo menos foi isso que ficou gravado na minha memória). Tudo isso somado as térmicas que se desprendiam a todo o tempo e eram devidamente varadas pelo preá borrado, podem dar a idéia do que essa experiência foi para mim que não tinha nenhuma condição de formar juízo de valor a respeito da minha segurança à época.
Me recordo de ter ficado paralisado e imaginado que quão mais rígido eu ficasse durante o vôo, menos aquele troço balançaria. Ai ai...
Atire a primeira fraldinha de reserva quem não tiver feito uma bela bobagem como essa na vida!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

CONTINUAÇÃO: ARQUEOLOGIA VOADORA - histórias, fotos e registros mofados, embolorados e cheios de teias de aranha.




Pois bem; eis que em Leopoldina/MG, onde trabalhava em 1997, olho para o céu, e vejo uns caras voando de parapente! Necessário lembrar que naquela época, ver um parapente voando não era tão comum assim; segui os voadores até que pousassem, determinado a aprender a voar de verdade.
Recomecei então o meu aprendizado no vôo livre; desta vez tive condições de comprar o meu equipamento (este Edel Quantum Rosa Choque que aparece na foto acima, decolando do Microondas em juiz de Fora/MG - 1997).
Nessa ocasião, fiz inúmeras bobagens; a maioria delas em razão da pouca experiência de vida (e no vôo livre óbviamente) que me fazia achar que tinha poder de controle sobre tudo. Agradeço sempre ao Pai do Céu a proteção àquele menino inexperiente e cheio de si que eu era, com as presunções próprias de quem tem 20 anos.
O próximo capítulo da saga mostrará uma destas bobagens imortalizadas pela fotografia....

ARQUEOLOGIA VOADORA - histórias, fotos e registros mofados, embolorados e cheios de teias de aranha.

Em uma verdadeira escavação arqueológica que fiz em uma gaveta de um velho criado-mudo achei diversas coisas interessantes; muitas relacionadas ao começo da minha história no vôo livre. Essa história e as imagens que encontrei e as digitalizei posteriormente, resolvi compartilhar com os amigos que aturam as minhas escrivinhaçõs neste espaço.
Coloquem suas máscaras anti-ácaro, tomem um poderoso anti-alérgico e sintam comigo o gostoso cheirinho de lembranças...


Essa foto registra o meu primeiro vôo de parapente, em 1995. O vôo não deve ter durado mais do que alguns segundos, mas me lembro muito bem de tudo o que eu senti naquele dia. O parapente acho que é um Classic; a turma mais antiga com certeza se lembrará tanto do modelo quanto da marca ( que eu não faço a mínima idéia).
Em 1994, me mudei para Poços de Caldas; tinha à época 20 anos, muita disposição, pouca vivência e muitíssimo a aprender na vida. Comnheci por lá um cara que estava mais ou menos nas mesmas condições que eu. O Ricardo também havia acabado de chegar em Poços de Caldas e, igualmente, não conhecia ninguém. O "culpado" por no dia 17 de Maio de 1995 eu ter me inscrevido em um curso para aprender a voar de parapente foi ele. Obrigado meu amigo!!!
Não pude terminar o curso, mas experimentei o gostinho de voar; o tal vírus de voador já estava incubado na minha alma e assim permaneceu até 1997 quando tive a oportunidade de reaprender a voar em leopoldina/MG.
É o que vou contar em seguida...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

"Nós: Mães de meninos-passarinhos"

Eu, Ana Clara e Dona Vera no dia que inspirou o texto que se segue; Setembro de 2004 .

Em 29 de Setembro de 2004, depois de anos de insistência e muita relutância, minha mãe finalmente resolveu ir até uma rampa pela primeira ( e única) vez; das emoções dela nesse dia e em tantos outros, nasceu o texto a seguir; uma página de raro talento e emoção de que a minha mãe foi generosamente dotada. Que Deus te proteja e ampare sempre Mãe querida! Amo você!

Nós: mãe de meninos passarinhos

O homem aprendeu a difícil arte de nadar como peixes, de voar como pássaros, e desaprendeu da fácil arte de viver como irmãos” (Abrahan Lincoln)

Sempre quando assistia a alguma matéria sobre vôo livre, ficava imaginando: esse negócio deve ser muito bom, bom mesmo, tão bom que depois do um vôo ao colocarem seus pés no chão, eles, os meninos, vem com outro semblante seguido daquele tradicional “uhuuu”, como se estivessem em estado de graça, principalmente porque nessas matérias também é colocado um som que tem tudo a ver. Por isso deve ficar tão legal, pensei. Bonito, lindo, mas para o filho dos outros. Como devem ficar essas mães, que ampararam exageradamente seus filhos nos primeiros passos e num piscar de olhos vêem seus “filhotes” carregando nas costas um “mochilão” enorme, que é o tal do parapente, voando no infinito azul? É, Deus toma conta! – encerrei meus pensamentos.

Mas logo logo precisei retoma-los, porque aquele menino que na infância tinha medo de saltar de uma altura de mais ou menos 2 metros, me comunica que está fazendo um curso que pra mim era de um futuro candidato a passarinho, que em breve estaria voando. Ai, que frio na barriga. – cê ta louco menino?! Se eu quisesse ter um filho passarinho teria casado com um passarinhão. Presta atenção Junie; vai nadar, jogar futebol, entra pra uma academia de ginástica... Ai meu Deus, coitada daquelas mães do Esporte Espetacular.

Certa vez, fui até uma rampa, em Santa Rita, pra ver “meu menino”, já casado e pai de uma menina de 4 anos, voar. No caminho, no carro, o ar me faltava e eu dava uma de durona, até que chegou o momento do danado do vôo. A parafernália toda pronta, o vento ajudando, as asas coloridas do meu filho estão infladas e ele mergulha no espaço que parece querer roubá-lo de mim, levando-o cada vez mais para o alto. E ele vai voando, voando e eu pensei que fosse infartar vendo meu filho indo embora, cada vez mais pequenininho.

Ufa! Graças a Deus ele desceu, está no chão, lá embaixo. Fomos eu, Karine e Ana Clara resgata-lo. E para minha surpresa, quando olhei para ele, ele estava com os olhos brilhando, com aquela cara de bobo em estado de graça, que nem os meninos do Esporte Espetacular; só faltava o som, aquela música linda que tocava nos comerciais idiotas de cigarro, “Holliwood, o sucesso!”. – gostou mãe? Muito legal, Junie - consegui dizer.

Apesar da minha preocupação de mãe, meu filho foi conseguindo administrar meu medo, me passando sempre a noção de responsabilidade na vida em todos os setores, principalmente na hora de decidir: voar ou não. As vezes ainda me pego pensando: será que essa expressão que eles trazem no rosto depois de um vôo é porque se aproximaram mais das coisas superiores? Por alguns momentos se livraram das emanações grosseiras, lançadas através dos pensamentos e atos pelos homens na terra? Será que nas alturas a energia positiva do sol consegue bombardear pacificamente as criações negativas dos homens? Acho que sim. Por isso, esse ar de plenitude, de paz interior, de sentirem mais que qualquer um de nós, a essência pura e divina do Grande Arquiteto do Universo dentro deles.

Que Deus nos abençoe e, ampare nossos filhos que não estão fazendo mal a ninguém, só continuam sendo nossos filhos lindos, amados e...passarinhos.

Vera


terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O INDIVIDUALISMO ÉTICO.

Porque eu vôo? Ah, porque eu gosto uai...
Rudolf Steiner, um austríaco de nascimento que viveu no final do século XIX e início do XX, foi quem criou a Antroposofia. A Antroposofia é um método de conhecimento que aborda o ser humano em seus níveis físico, vital, anímico e espiritual, e mostra como essas naturezas, absolutamente distintas entre si, atuam em constante inter-relação.
Mas vamos ao que interessa; dentro da formulação dos conceitos antroposóficos, Rudolf Steiner trabalhou com o que chamou de individualismo ético. Para Steiner e seus seguidores, o indivíduo para ser completo precisaria estar sempre em busca do que é melhor para si, para que ao final, de posse de boas referências e aquisições pessoais pudesse, como efeito, ser útil a sociedade em que vive.
Steiner (e eu também diga-se), provavelmente não devia acreditar em campanhas para promoção da paz já que elas não surtem o efeito desejado; mais eficaz seria que àqueles que participam desses movimentos conseguissem viver em paz consigo mesmo, com seus filhos, esposa, vizinhos. Essa sim seria uma forma efetiva de promoção da paz. Reiteradamente, vemos o cidadão que se engaja na luta pela paz no Oriente Médio não conseguir ir de casa ao trabalho sem discutir no trânsito. A promoção da paz para os outros é mais fácil do que para si...
Mas Voltemos ao X da questão e deixemos as abstrações para outro momento...O problema da história toda é a conceituação do que é melhor para si; vivemos num mundo em que o senso comum nos empurra em direção ao consumismo. A felicidade estaria em ter um bom carro de um modelo novo, uma casa que nos dê, além de conforto um "status social", usar boas roupas de marcas que se identifiquem com o nosso "estilo de vida". Isso é o que nos mostra a TV diariamente; é para o que nos prepara a vida social: precisamos ser "bem sucedidos". É o motivo de diversas constrições a que nos dispomos do tipo "precisamos fazer um sacrifício". Interessante como qualquer sacrifício se justifica se for em prol de Ter algo; difícil é justificar ante os nossos pares da vida o sacrifício para a mudança interna. Enfim...desse jeito não há individualismo ético que resista. Quando os valores positivos da vida estão ligados diretamente ao "ter" fica óbvio que os níveis físicos, vitais, anímicos e espirituais do ser humano ficam relegados a um plano coadjuvante. O individualismo ético subiu no telhado...
É preciso que a conceituação do que é bom para o indivíduo possa ser reforçada em planos não materiais; em que pese o fato de TODOS nós nos depararmos com essa verdade na vida em algum momento, insistimos em continuar sendo presas da cultura dominante do "ter" para "ser".
By the way, o Cristo (aquele mesmo do natal...Papai Noel...páscoa...chocolate e coelhinho...essas coisas) foi talvez quem, de forma mais precisa e sábia e nem por isso menos simples, tenha falado da comprovada necessidade de se "olhar para dentro". "O reino dos céus está dentro de vós" é uma imagem clara de ética individualista e da premente necessidade de reforma íntima. Mas de todas as falas do Cristo, provavelmente a que mais perfeitamente demonstra a necessidade de se estar em comunhão com si mesmo seja o tão famoso "Ama ao próximo como a ti mesmo e a Deus sobre todas as coisas." Neste preceito estão contidas duas regras:
1)Amar o próximo e;
2) amar a Deus sobre todas as coisas.
O que geralmente nos esquecemos é da referência que também está explicitada: COMO A TI MESMO. Precisamos reaprender a nos amar, para que consigamos amar ao próximo. Está aí o mais perfeito exemplo de individualismo ético.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

CONSPIRAÇÃO CONTRA A MUDANÇA - "Não se iluda meu amigo; a vida é eterno volver; a roseira decepada voltará a florescer..."

O sol se pondo no Planalto Central - a vida se renova e a mudança se reafirma como Lei natural da vida diariamente. Crédito da foto para minha amiga Flávia.


No decorrer da vida, as mudanças são inevitáveis e necessárias. Mudamos fisicamente na medida em que envelhecemos; mudamos nossos conceitos e foco na razão de nossas experiências diárias. As transformações pelas quais o ser humano se vê na obrigação e ou necessidade de passar, trazem também algumas constatações interessantes. Vejamos;

- A visão que as pessoas têm a respeito de nós mesmo é, de alguma forma, um poderoso antídoto contra a mudança de comportamento. Não basta querer mudar; é preciso ter coragem para romper com estigmas e, também e sobretudo, a consciência de que posturas e hábitos geram marcas, que nos levam a tender para a inércia. Explico; ou melhor, explica Luiz Eduardo Soares no livro "Cabeça de porco" em um exemplo mais do que feliz e exato:

"A criança sobre a qual pesa um estigma - quando dela se diz que "está sempre atrasada" . "é difícil", "tem dificuldades de aprendizagem" ou "apresenta comportamento reiteradamente impróprio" - terá grandes dificuldades para fazer com que a sua eventual mudança de atitude e rendimento seja percebida, reconhecida, valorizada e difundida...ela tenderá a ser reenviada a sua antiga posição, de novo e de novo, numa espécie de gravitação perversa, socialmente construída e inconsciente aos oficiantes deste "ritual" macabro. Uma vez proclamada a condenação - "fulano é assim" - , será complicado alterar as expctativas, pois estas têm vôo próprio e, costumeiramente, prescindem da confirmação da realidade. Por exemplo: se a criança costuma chegar atrasada e é por isso rotulada como "atrasada", quando reverte expectativas e chega mais cedo, de seu comportamento diz-se: "Nossa...o que aconteceu? O mundo está virado de pernas pro ar...fulano foi pontual...que milagre é esse?..." Pronto, desfez-se a mudança e confirmou-se a qualificação anteriormente produzida e chancelada pela comunidade. A criança buscava o silêncio discreto que a acolheria e valorizaria como apenas mais um estudante, entre tantos - livre, portanto, do destaque provocado pelas luzes da acusação, da cobrança ou da crítica. Em vez disso, colhe novo destaque, ainda mais severo, que acentua o suposto fato de que ele ou ela é uma pessoa essencialmente atrasada, como se esta fosse sua inexorável natureza. Natureza que emerge , inapelavelmente, graças aos observadores que a redescobrem, mesmo sob o disfarce do seu oposto. Não chegar atrasado passa a ser mera manifestação de uma essência, ora imediatamente visível, ora evidente por sua inversão, isto é, presente pelo avesso."

O texto iluminadamente lúcido e cirurgicamente preciso de Luiz Eduardo Soares é, na minha opinião, um bom fomento para a reflexão acerca da importância da esperança e da crença no ser humano como agente ativo de mudanças.

Ao tempo em que se faz necessária a relativização da importância do juízo de valor dos outros, faz-se ainda mais imprescindível que sejamos no mínimo neutros diante da possibilidade de mudança dos nossos pares e irmãos na vida.

Não há como se esperar que o meio em que a gente vive se modifique, se nós mesmos nos incubimos de taxar e estigmatizar as pessoas; "Fulano é desonesto"; "Beltrano é violento", "Cicrano é bom", "a outra é má", etc. são formas de eternizamos aquilo que já se implantou. Melhor seria se constatássemos que o ser humano é um bicho onde cabem, além do branco e do preto inúmeras tonalidades de cinza...ninguém é totalmente bom a ponto de não poder ser ruim um dia, e vice-versa.

É chegada a hora de admitirmos as nuances do ser humano e, sermos capazes de discutir ações e não pessoas. Essas últimas merecem sempre o nosso respeito e a esperança de que podem mudar; para o bem da raça.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

SÉRIE RAMPAS POR AÍ A FORA -FINAL




Pois é...


Tantas histórias e tantas experiências; enquanto escrevia sobre as rampas, me lembrei de muita gente boa, de muitos lugares bonitos, de muitos vôos legais.


Essa parte final da "saga" fica dedicada as outras rampas em que voei, mas que infelizmente não tenho registro fotográfico que se preste. Seria injusto não escrever nada a respeito de lugares tão legais e com tantas histórias.


-CRUZEIRO DE CAMBUÍ E CÓRREGO DE BOM JESUS : Voei lá em 2004. Me impressionou demais a quantidade de pilotos e a variedade de lugares para voar. Fui super bem recebido por todos lá, fiz um voozinho do Cruzeiro em Cambuí e, depois, fui "pru Kórgo" voar na rampa NW.


-PICO DO GAVIÃO- Andradas : Seguramente a rampa mais bem estruturada em que voei. O vôo, espetacular, com várias possibilidades. Estive lá em 2005, fim de ano. Apesar da época não ser a das melhores, fiz um vôo muito legal lá.


-MIRANTE DA BR 040 EM JUIZ DE FORA: Tomei um susto quando vi que não tinha foto do local (pelo menos que não estejam mofadas) ; voei muito do Mirante. Vento Sul, um panelão super turbulento em dias em que o negócio tá bom.


-ARGIRITA : Foi provavelmente uma das maiores besteiras que fiz em matéria de vôo livre. Decolei de uma montanha em Argirita em 1997, quando nem sabia bem o que era um parapente. E o local funciona melhor como pouso de Cross vindo de Leopoldina do que como rampa.


-CRISTO DE POUSO ALEGRE : Vento Sul e a cidade embaixo. Ao lado, o bananal do Maurão...


-CHALÉ PRÓXIMO AO MIRANTE EM JUIZ DE FORA: Prova inquestionável de que gosto muito de voar de parapente. Só quem já voou de lá sabe.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

SÉRIE RAMPAS POR AÍ A FORA PARTE IX - VALADARES


Acharam que era a Ibituruna né? Nananinanão. É Valadares em Juiz de Fora/MG em Abril de 2005.

A Valadares em questão é um distrito de Juiz de Fora/MG que fica às margens da BR 267 em direção ao Sul de Minas Gerais. No local não tem sinal de nenhuma operadora de celular. O Vilarejo deve ter no máximo uns 300 habitantes e não existe estrada para subir a rampa, o que significa que a subida é totalmente feita a pé (com os 25 kg da mochila do parapente nas costas óbviamente) e dura aproximadamente 1 hora e meia!

E o mais impressionante: fiz isso várias vezes para voar! Aliás, eu e mais um monte de gente que, na falta de lugar melhor e mais perto, encarava todas essas roubadas para voar.

O Vôo em si é bom, em que pese o desnível não ser muito grande (270 metros). Decolagens de Sudeste a Norte fazem com que, raramente, a subida não termine com um belo voozinho. Térmicas fortes e bicudas são comuns durante todo o ano; já marquei térmica de 7 m/s no lugar escutei histórias de térmicas ainda mais fortes. As possibilidades de Cross country são imensas; existem rotas faceis e para vários quadrantes e gostos. O que falta ao local é uma estrutura mínima para que esta seja realmente a rampa em Juiz de Fora.

É incrível, mas tenho excelentes lembranças dos vôos, das caminhadas morro acima e sobretudo das boas risadas após a subida junto com os amigos.